domingo, 17 de abril de 2011

a desconhecida.

"Sempre acreditei na bondade dos desconhecidos." (Um bonde chamado Desejo)


'A' de artigo definido mesmo, é como dá para defini-la. Não foi desconhecida por aí, foi definitiva. Eis aquele momento: Quando tudo está melancólico, quando o ócio te domina, quando a aceitação da perda toma conta da tristeza e juntas ficam felizes. Estava-se nesse momento então, no qual abandona todas as coisas simples e belas de lado por conta de coisas mais insignificantes ainda.
E ela surge, A desconhecida.

Para entender melhor, saía de uma sessão estética e ia já pagar a quantia quando deparei com ela: morena, olhos castanhos, o costume do que se ver. Uma pessoa normal, porém seu rosto tinha um formato tão exuberante, que para entender, é só imaginar aquele dia em que se anda pela cidade, e passa uma pessoa muito bela ao lado, e fica-se atordoado por tamanha beleza, porque cativa, mexe com alguma coisa. Ela, a desconhecida, tinha bem mais que essa beleza.
Ela estava sentada com a manicure, aí olhando-a melhor, reparei que ela não tinha um dos braços, provalvemente era de alguma causalidade infeliz. E lá estava fazendo a unha da mão que tinha: feliz, conversando, vivendo. Não a olhei por muito tempo, poderia perceber pensei, mas tentei olha-la de novo.

Bela, linda, aquela bendita tinha algum campo de energia que me atraía. Aquele sorriso, aquela satisfação nos olhos. Foda-se se sofreu algum acidente e dessa pena amputou um dos seus braços, mas ela ali estava bem mais viva, bem mais completa e inteira do que minha pessoa. Precisei ir embora, era tarde, mas fui com ela no pensamento, alias, eu ainda penso nela, me contagiou definitivamente definido, como o artigo A.

Não sei seu nome, gostaria de saber. Gostaria de vê-la, de sorrir para ela, de perguntar como se chamava e o que gostava de fazer. Gostaria de conviver com ela, de me sentir inteira como ela, de aprender com ela o verdadeiro significado da vida, que, aos meus 32 anos, pensava que aprendi, mas vejo que não sei de nada.

E o que aconteceu com a melancolia, com o ócio, com a tristeza que dominava? Permanece um pouco, mas a desconhecida fica em minha mente, o que melhora demais tudo a minha volta. Até uma simples caneta chega a ser magnífica! Incrível isso.

Se me perguntar se lembro de cada detalhe do rosto, minto falando que sim. Só lembro de um flash, mas a situação e aquela energia ficaram. E quando qualquer momento ruim bater em mim, vou lembra de tudo isso, como um colar de proteção.

Não sei se é de mim isso, mas o Sol das cinco da tarde está mais lindo como nunca esteve.


(mi autoria)

segunda-feira, 11 de abril de 2011

aniversário

(de minha autoria)

Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira! ... 
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!... (A. de Campos)

Despertador toca todo dia às 7h da manhã. Todo dia a mesma rotina: Trabalho, estudos. Porém hoje seria diferente, ele não iria trabalhar: pediu folga, iria compensar as horas depois.
Levantou, espreguiçou com o máximo  de força até sentir alongado. Fazia já alguns raios de sol. Chover não chove, pensa, assim espero!
Se arruma no seu tempo, como se fosse trabalhar. Primeiro agradece à Deus por mais um dia, troca-se, faz o café, vê as notícias pela manhã, pega algumas sacolas com mantimentos e uma caixa, põe no carro, vai se despedir da mãe.

- Há essa hora acordado filho? Decidiu que ia trabalhar?
- Vou trabalhar hoje na fábrica não, mãe!
- Mas por quê acordou cedo então? Achei que folgaria para dormir mais, já que hoje é seu aniversário...
- Vou sair, preciso fazer alguns compromissos.

Ela sorri; ele apostou que aquele sorriso e olhar era de alguma lembrança que vinha na cabeça dela, alguma recordação dele pequeno.
- Feliz aniversário, meu filho, meu grande Lucas Evandro! parece que foi ontem, há 22 anos, que eu peguei você pela primeira vez no colo...

Os dois se abraçam. Ele a beija, e bom trabalho hoje mamãe! A noite nos vemos, vamos comer fora.
Abençoa-o, e ele sai de carro.

Fora um percurso longo, demorou 40 minutos para chegar ao destino: um sítio, com gramado alto a ponto de cobrir as pernas dos trabalhadores por ali. Bateu um nervosismo, e se não gostarem de mim? Mas tentarei. Respirou e seguiu em frente.
A casa do sítio era a mais rústica que poderia ser: pisando entre as madeiras, ouvia-se os ruídos ao redor, então Lucas se deparou com uma moça de óculos, saia rodada e longa, blusa estilo camiseta:
- Olá senhorita, procuro por dona Maria Teresa.
- Sou eu, e você quem é?
- Sou Lucas Evandro, nos falamos por telefone...
- Ah sim! Nossa, muito obrigada por vir...não sabe a satisfação que isso causa em nossa casa!
- Acredito....bem, onde estão as crianças e onde posso me trocar?
- Humm ok, para se trocar segue este corredor até o final, e já vou preparar as crianças no pátio.
.
E o seu clow surgi. Sr. Mister Boi, chamava. Nariz vermelho, roupa xadrez, chapéu e botina. Foi de encontro com as crianças. Espero que gostem, pensou! Saindo da tal caixa, trazia um mundo novo para aqueles órfãos. Passou aquela tarde fazendo piadas, brincadeiras e distribuindo doces. Levou algumas cestas básicas, e ajudou no preparo do café da tarde dos pequenos. A dona do recinto foi ao seu encontro durante o café:
- Não sei como agradecer, foi lindo! A energia das crianças, a animação. a harmonia... como posso retribuir?
- O sorriso em seu rosto e nos das crianças já vale por tudo isso! É bom receber esse tipo de elogio, essa harmonia, energia positiva. Não sabe o tanto que fez meu dia mais feliz.
E beijou a mão de Maria Teresa. Se aprontou, continuou conversando com os trabalhadores do sítio, despachando algumas sacolas com comidas, que estavam no carro de Lucas.
Já era tarde, umas 20h, quando chegou em casa. Na sala, estava sua mãe deitada, levemente sonolenta, no qual levantou correndo, arrumando uma mesa com bolo.
- Já estava preocupada menino! Mas enfim em casa...parabéns! Fiz um bolo de pêssego, como você gosta...
- Não precisa gastar essas coisas comigo, mãe. Sua presença basta...
- Fiz questão! Parabéns pra você, nesta data querida.
.
- Sinto falta das festas aqui em casa, quando você trazia seus amiguinhos...
- Crescemos, mãe, crescemos! Recebi umas mensagens durante o dia...
- Você foi fazer o que alias?
- Ver crianças no orfanato mãe, alegrar seus dias...
- No seu aniversário?
- Não há presente mais verdadeiro mãe, mais digno pra esse dia tão especial. Sabe, cansei de esperar das pessoas alguma coisa, poucos vão corresponder ao que queremos, mas quando se trata de colaborar com pessoas que não conhecemos, não existe sorrisos mais sinceros, ou críticas mais sinceras...o desconhecido é magnífico mãe, ajudar sem nada em troca me da a esperança que perdi sobre esse mundo.
- Gostaria de ter trazido com o tempo sua infância, para que aproveitasse esse dia pra você!
- E aproveitei mãe, estou até exausto! Bem...pra não dizer que não pensei em mim, trouxe algo para nós.
Foi até o carro e pegou uma caixa de pizza e uma garrafa. Como você gosta mãe, acompanhado de um vinho!
E passaram ali, em cima do terraço simples de sua casa, olhando as estrelas.
- Fico feliz meu filho, em ver que no seu aniversário, posso perceber o quão homem se tornou.
E ali permaneceram, admirando a lua redonda, gorda e branca, até dar a meia-noite e tudo voltar a sua rotina.

sexta-feira, 8 de abril de 2011

(F)


Não teve como continuar meu dia cotidiano sem falar sobre isso. Ontem aconteceu mais uma tragédia no Rio, e não foi crime organizado nem nada do tipo, e sim uma 'chacina' que aconteceu em uma escola, matando 12 crianças, e o suícidio do próprio matador.
Não tem como não olhar essas notícias, e mesmo estando distante de nós, não pensar nessas crianças...para elas, era mais uma manhã indo a escola, logo seria sexta-feira, logo seria final de semana e simplesmente esse dia não chegou para elas por conta de algo tão absurdo...que não tinha como impedir ali e agora.
Não sei se sou só eu, mas nem chegamos na metado do semestre, e já apareceu tantos desastres, maioria causada pelo próprio ser humano ou no mínimo teve algo a ver com ele...me pergunto, onde vai acabar isso? Quando? Há quem diga que o fim do mundo é em 2012, segundo leitura dos Maias, mas já pararam pra refletir que o mundo já está acabando? Que não depende de leitura nenhuma, nem profecia, nem de nenhuma divindade religiosa para que isso aconteça: Nós, seres humanos, conseguimos isso sozinhos, seja na poluição, na intolerância, nas más influências a ponto de má formação psicológica de alguém...qualquer coisa: se o mundo está assim, é culpa nossa...de todos, sem exceção!
E infelizmente temos que de alguma forma seguir adiante com isso, com essa angústia, dor...mas ainda podemos fazer diferente, podemos sim! Depende de cada um de nós fazer sua parte como cidadão, seja ajudando ao próximo, ou colaborando com a natureza, sendo tolerante, benfazejo...
Tá, eu aqui sentada em frente a um computador não vai mudar muito, mas vo tenta nesse momento pelo menos expressar um pouco que to sentindo e incentivar, quem tiver pensando o mesmo que eu, mudar esse quadro crítico que se passa.
Não custa tentar...nem que seje um pouco por dia, tenta arrumar essa bagunça quem sabe, espero que não seje um sonho tão surreal.
Faço uma prece agora a todas as famílias, que neste ano e anteriores, sofreram alguma perda de ente querido por conta de qualquer eventualidade, que tenham força, fé; e para as pessoas que se foram, virem belos anjos, e nos guarde, nos guie para um rumo melhor.

Fiquem com Deus,
Beijos,
Mayara.

sábado, 12 de março de 2011

Come closer

 (De minha autoria, em tempos de saber o que é amar, de revelações...etc.)

'And it's coming closer ' (Kings of leon)

Um gole de café. Relógio. Olhar a revista na mesa, olhar as pessoas em volta. Café, e novamente, relógio.
Será que foi o certo isso que fiz? Pedir esta conversa, ela irá ficar preocupada. Vai pensar que estou com dificuldades, sei lá, quando só quero confessar...
E se for besteira essa confissão? E se for apenas uma confusão de sentidos, sentimentos? Poderei perder a amizade por isso? E ainda, o que irão pensar depois?
Minhas mãos soam, é evidente isso. Tomara que atrase, tomara que ligue falando que não da para vir, que conversamos depois, e eu topo! Ou ainda, invento uma história, digo que estou apaixonada pelo meu chefe.
Mas não é ele que quero...antes fosse!
Mais um gole de café e olho para a porta. Não devia ter olhado: la vem ela, com sua franja quase tampando seus olhos caramelados. Abri um sorriso quando me vê (e que sorriso), vem em minha direção.
PARA! PARA ONDE ESTÁ! Penso. Preciso inventar uma história, mas vê-la me faz confusa, pronta para me entregar, o que fazer...

- Desculpa o atraso querida! Como você está? Fiquei procupada na ligação, está tudo bem? Sua voz estava péssima ontem, apesar de ver que estava um pouco bêbada, certo? (eu concordo com a cabeça) Sabia Lisa! Não resistiu a um bom copo de vinho hahahaha...mas conte-me, o que houve?
- É.... ai, sinceramente, era bobagem, coisa de bêbado!
- Não comece Lisa, mesmo você tonta, você só fala aquilo que, no fundo, quer falar.
- Ai Rosana...era nada, sério...
- Paixão mal resolvida amiga?

Amiga....ai que palavra! Dizem que a amizade é o amor mais verdadeiro....porque não ser o próprio amor?
Fecho os olhos....Já era, meu Deus? Como preciso acalma isso, mas tenho medo de perder muito com isso também...o que faço? 
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- Está mais calma depois dessa respiração, flor?
- Estou sim. Rô, não é facíl o que vou falar...nem sei se seria o local adequado...
- Ah, relaxa! Lógico que é! E outra, não farei caras e bocas para o pessoal perceber as conversas, mas me fala logo, quero te ajudar.
- Sabe Rô, faz tempo que somos amigas, certo? Uns sete anos unidas em tantas coisas...brigas, alegrias, companheirismo, (veio o sorriso novamente. fecho os olhos), e nem sempre contamos nossos segredos completos uma para a outra...sempre soubemos disso, ninguém é um livro aberto...
- O que houve, Lisa?
- (............................................) Sabe Rô, não sabe o quanto você me faz bem, o quanto te quero bem, e... te quero sempre comigo.
- Também te quero sempre comigo menina! Seremos sempre amig...
- Para Rô! Serei mais clara. Não falo de amizade: meu sentimento por você evoluiu mais que isso.... e ISSO estava me atordoando...ai.

Olhos fechados. NÃO QUERO VER SEU ROSTO, mas se não ver agora, e se ela não quiser mais minha amizade? Será a última vez que verei o sorriso?

- Mas escute ainda Rô, não quero que nossa amziade mude por isso, sei que é um erro, e isso deve passar...
- Você é lésbica e nunca me contou? (seu rosto tinha perdido o sorriso por completo)
- Não! Não que eu saiba aliás...o que sei é que não importa o que seja, eu sou apaixonada por VOCÊ.

Ela me olhou firme. Vi os olhos lacrimejarem...finalmente sai umas palavras:
- Preciso voltar ao meu trabalho flor... depois conversamos sobre isso? Vai ao meu escritório em 2 horas, ok?
- Ok.

Chegou a hora. Será que vai falar muita merda, será que é correspondido o que sinto? Ela não atende a porta...
- Finalmente! Achei que já tivesse ido embora já daqui...
- Relaxa Elisângela... (ela NUNCA me chamou assim) sente-se, por favor.
- Sim?
- Olha...eu sei o que eu realmente sinto, e por você não passa de amizade, espero que entenda...
- Ok...nossa amizade mudará?
- Com certeza um pouco, Lisa, nada fica super bem depois de certas coisas, mas depois passa.
- Ok...melhor eu ir.
- Ok.
- Tchau Rô
- Tchau Lisa...
Fui chegar perto para abraçar e dizer tchau. Achei que fosse negar tal afeto, mas retribuiu.

Desatei-me em seus braços. Senti meu coração mal, longe... não teria aquele amor, apenas amizade. Antes isso que nada, correto? É seguir em frente

- Lisa, posso apenas fazer algo?
- Sim Rô?
...
...
...
...
Foram, então, as melhores horas de minha vida, por apenas ter tido a oportunidade de sentir o que seria amar.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Abraçando um Jequitiba-Rosa

Quando pequeno vi muitos desenhos, e sempre me chamou mais atenção aquele que tivesse alguma figura típica de um herói: pessoa forte, determinada, util para a sociedade e o melhor de tudo - ao mesmo tempo que salvava o planeta, no outro segundo chegava a tempo em uma reunião de negócios, quando voltava a seu disfarce de humano.

Acho que ver desenhos deste gênero pode até fazer mal, porque eu queria ser assim: pronto pra salvar o mundo, bater em ladrões, parar um trem que iria cair de um penhasco, e, além disso, voltar ao disfarce normal sem um cansaço, dor de cabeça, e pronto para outras tarefas do dia.
Aí esqueci que sou humano. Um humano um pouco mole, confesso, ainda dentro de algum tipo de zona de conforto. Todos estamos álias.
Acontece que realmente devo ter levado essa coisa de herói a sério, porque hoje, mesmo um humano meio preguiçoso e cheio de problemas, quero ainda ter um jeito de abraçar tudo, absolver tudo, estudar de tudo, trabalhar de tudo.

Logo a noite coloco o relógio para despertar às 5 da manhã do dia seguinte: Levanto, tomo café, estudo, vou correr, banho, hora do trabalho, e-mails, telefonemas, aquela escapada para digitar artigo da faculdade, trabalho de novo, almoço, trabalho, outra escapada, aquela entradinha em algum site de relacionamentos, trabalho, janta, estudos, cursos extras (este é o melhor): ballet, judô, inglês, espanhol, mandarim, teatro, algum curso técnico, faculdade, aula, apresentação de um seminário, casa, planejamento daquela viagem, daquele intercâmbio, daquele emprego dos sonhos, daqueles mestrado, doutorado tão sonhado, estudos, tv, e ainda pra finalizar uma saída com os amigos.

Yes. Isso seria um dia de quase herói imagino (quase, passei longe ao o que os personagens dos desenhos animados fazem). Se eu fosse herói, iria querer provar de forma mais simbólica todo esse processo de  qual fiz tanta coisa em 'pouco' tempo: Seria a pessoa elástica, e o meu símbolo seria de minha pessoa conseguindo abraçar um Jequitiba-Rosa.



Aí aprendi. Aprendi que não aguento tanta força, meus braços não tem tanta elasticidade, e meu corpo, aguentando um dia assim corrido, no outro não aguentaria nem 10% do que citei acima.

Planejo tanta coisa em minha vida, tanta coisa para o dia seguinte, achando que serei capaz de tudo da noite pro dia. E esqueço que não sou herói, mas depois lembro, quando o cansaço bater, e na hora de me arrumar para algo, terei sim dor de cabeça, estresse.
Mas tenho minha semelhança com o herói, aquela que nos conecta em um unvierso só, uma coisa que para muitos possa ser insignificante: a arte de não desistir do que quer.

Posso não fazer tudo em um dia, mas se tiver vontade, posso dividir tudo isso, de forma sincronizada, e, com o tempo, longo tempo (fazer o que) terei um resultado bom no final, mesmo que isso demore.
Hoje tudo é rápido, que aos meus vinte e poucos já considero-me um incapacitado. Engano-me. Sou jovem, e capaz ainda de realizar muitas coisas pelo mundo.
Porque heróis no nosso mundo se forma com conquistas demoradas, sofridas, mas que valeram a pena quando adiquiridas.

E posso assim, não conseguir conquistar uma Jequitiba Rosa, mas posso, porque não, conquistar o mundo?
Acho mais digno!
E que todos aqueles heróis que se cuidem: Um novo herói, e mais concreto, está por vir.

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Necessidade de minha infância - História sem fim - 7a edição, 1997.

 Feliz Ano novo a todos! Desejo tudo de bom a todos, e muitas conquistas!

Achei que depois de formada teria mais tempo para refletir, escrever. Aquele que disse que com o tempo facilita ou que finalizando algo tudo tranquiliza estava meramente enganado. A tendência é sempre mais responsabilidades,  desesperos, distanciamentos. Sobra-nos a paciência de entender tudo isso, e a força de vontade. Queria inaugura este post falando de Brasília, mas precisaria de tempo e infelizmente não tenho isso agora, então falarei de uma necessidade da minha infância. Quando estava na quinta, sexta série, usei um livro didático de uma autora no qual via algum texto na capa, porém as figuras tampavam partes deste texto. Ao abrir o livro, havia o trecho escrito, sem tampões, para nossa apreciação. Esse trecho é do livro História sem Fim (aposto que muitos já viram e/ou ouviram falar do filme) e desde então eu vinha atrás de tal trecho, porém minha infância está empacotada em alguns pacotes de mudanças. Um dia, mexendo por lá em busca de um livro sobre Renato Russo, achei o tal trecho. Sintam-se a vontade de ler, reler, de entender, de praticar, porque não vou explicar o trecho. Meu post acaba aqui.

"Bastian olhou para o livro.
'Gostaria de saber', disse para si mesmo, 'o que se passa dentro de um livro quando ele está fechado. É claro que lá dentro só há letras impressas em papel, mas, apesar disso, deve acontecer alguma coisa porque, quando o abro, existe ali uma história completa. Lá dentro há pessoas que ainda não conheço, e toda espécie de aventuras, feitos e combates - e muitas vezes há tempestades no mar, ou alguém vai a países e cidades exóticos. Tudo isso, de algum modo, está dentro do livro. É preciso lê-lo para saber, é claro. Mas, antes disso, já está lá dentro. Gostaria de saber como..."

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Presente de Natal.


(De minha autoria, em plenos tempos de falsidade, desilusão de uma alma com sonhos)

Sentia-se afobação, sem ar. Ou melhor, com dificuldade de respirar, parecendo como se algo atrapalhasse. Abriu os olhos. Arderam. Viu, em pouca distância, a superfície da água. Refletia-se verde, devia ser fim de tarde, pensou (ainda pensou?). Tentou alcançar a superfície: fazia forças circulares com as pernas, com os braços, mas parecia não chegar ao topo. Aquilo foi incomodando a cada instante, despesperando, e a água fazia uma pressão contrária.
Um puxão forte de ar. Abriu os olhos. Era apenas mais um sonho e/ou pesadelo, depende do contexto. Virou seu corpo de frente ao teto, e tentou enxergar algo naquela escuridão. Levantou, e puxava o ar como se sugasse, devia ser uma certeza de vida, de não ter mais obstáculos. Decidiu ver que horas eram no seu celular. Quatro e meia da manhã, bufou. Foi ver correspondências, e-mails. Nada. Estava só, e era Natal.
Olhou pela janela de sua sacada. Ouvia vozes, risadas, a cidade iluminada pelo tempo festivo. Não que não tivesse com quem comemora tal tempo, mas eram familiares distantes, aqueles que se veem apenas em tempo de fim de ano.
Acende um cigarro, inala aquela fumaça com tanta força, em intenção de engasgar suponho. Não engasgou, que pena.
Que patifaria esses tempos! Pensava. Quantas risadas, quantas conversas, quantos abraços sem significados! Único período do ano que lembramos dos outros, que lembramos dos presentes...E ano-novo? Outra patifaria achando que será diferente, que tudo será renovago, e é a mesma babaquice.
Apagou o cigarro. Olhou ao relógio perto da cabiceira, cinco e vinte, quase de manhã. Decidiu sair.
Estava ventando, mas nada de temer um tempo de condições frias. Levava junto uma mochila, pesada, e fumava, dando tragadas cada vez mais longas.
Enfim parou, como se tivesse acordado de um momento sonâmbulo: encontrava-se na porta de um hospital. Jogou o toco do cigarro fora, abriu uma garrafinha contendo whisky barato, bebeu um pouco e entrou.
Estava tranquilo dessa vez, pessoas pareciam calmas por ali, e já se via alguns jovens sendo atendidos por culpa de bebedeiras, acidentes etc; foi em direção à recepcionista:
- Olá.
- Oi, em que posso ajudar?
- Sei que é madrugada, e o horário de visitas não é definitivamente agora, mas gostaria de ver uma criança, da ala de queimaduras, ou de quimioterapia, tanto faz.
A recepcionista, que até então não levantara os olhos, levantou, de forma desconfiada:
- Qualquer criança, como assim?
- Qualquer. Lhe suplico.
Quando já ia dizer não, aparece um doutor que encosta no ombro dela, e diz:
- Por favor, querida, deixa-o entrar, ele é voluntário!
- Ok, que fique em sua responsabilidade então!
Seguiram os dois pelo hall, em direção a quimioterapia. Segundo o Dr. A - assim nomeio - havia três crianças acordadas naquela hora.
- Achei que não viesse - o doutor quebrou o silêncio durante a caminhada - Olha, o que houve entre nós... por favor, guarde as recordações boas, você sabe o tanto que foi especial para mim.
- Ok, doutor, tá tranquilo! Eu não suporto esta data, e só tem uma coisa que ainda me mantêm fiel à alguma coisa é isto. Sobre nós, te entendo. Você encontro um novo amor, isso acontece. O mundo é grande demais para sermos de uma coisa só, um lugar só, uma pessoa só. Vou ao banheiro. Verifica se as crianças estão acordadas.
Bateu em seu ombro. O Dr. A fora verificar. Enquanto o outro tomara diferente rumo. Passara nem muito tempo, estava de volta, vestia-se uma camisola grande cor salmão, tênis branco, e um chapéu vermelho de Papai Noel. Possuia ainda uma caixa na mão.
Ao entrar na sala, havia mesmo três crianças acordadas, em apenas uma ala, conforme dissera o Doutor. Este saía no recinto, desejou boa sorte ao nosso personagem, fechou a porta, e sumiu, atravessando o corredor.
- Bom dia à vocês.
- Está ainda escuro! disse a criança número 1
- Sim, mas logo aparece o Sol, não falta muito, apenas uma hora, por aí. Sabe quem sou?
- Não! Disse e criança 3.
- Quem é você? Exclama criança 2.
- Sou um sujeito sem rumo na vida, diria. Tenho 32 anos, trabalho com Direção de Vídeos. Sou de Áries, ascendente em Peixes. Sou homossexual, solteiro, porque perdi meu namorado para alguém que ele mal conhece, odeio o Natal e sua farsa de que tudo está bem, porém nesse mesmo dia em todo ano, eu tenho uma missão.
- Qual? Exclamaram as três crianças, já assustadas com o indivíduo.
Faço companhia a crianças, como vocês. Alías, adolescentes, parecem terem mais de seus 13 anos - todas sacudiram a cabeça positivamente - Continuando: gosto de contar histórias, gosto de relatar sobre coisas, momentos, nada sobre contos de fadas. Se puderem me dar a atenção, começo agora.
Se entreolharam desconfiadas, e fizeram que sim com a cabeça.
Ele abriu uma caixa, a mesma que estava em suas mãos, e nesse movimento pegou uma borboleta de bexiga, e segurou-a com uam das mãos. Dali na caixa, tirava flautas, pandeiros, desenhos, e o personagem contava sua história de vida: do acidente que sofrera, do tempo que ficou no hospital, mas graças a um homem sem esperança, que continha em viver visitando pessoas e as ouvindo ou contando causos, ele percebera que a vida tem um valor delicioso, e ao mesmo tempo confuso, quando aprendemos a ser o que somos com meros desconhecidos.
Natal, para ele, focava em apenas presentear aqueles que vemos desde nosso nascimento, amigos que nos toleram; e para aqueles que não tem nada disso? Natal seria insignificante! E quantas vezes apenas um sorriso, um olhar, uma troca de ideia com alguém que nunca vira antes, parecia a sensação de sair do mar, após muito tempo dentro dele, recuperando aquele fôlego, uma segunda chance a vida, a renovação. Hoje, sua família tinha-se afastado, porém todo dia era um novo dia de pergunta que horas eram a alguém na fila, e elogiar o sorriso da pessoa. Se essa tivesse ainda a ingenuidade e a sabedoria de uma criança, agradeceria o elogio, e o dia seria diferente para essas duas pessoas.
Terminou de contar as histórias, já raiava uns feixes de luz.
Espero que gostaram crianças!
O brilho em seus olhares já encontrava diferentes, como um susto misturado com alegria.
- Gostamos, senhor...? Disse a criança número 1.
- Me chama apenas de moço.
- Ok, moço...Obrigado, por dar o trabalho de vir de madrugada, fazer este Natal diferente! Sei lá, foi mais divertido que do ano passado, não veio ninguém nos visitar!
Ele sorriu. Despedindo, por último entregou um Pão de Mel recheado a cada um, para que depois da sensação de alívio, nada como adoçar um pouco a vida. Se olharam, sorriram. O personagem fora embora. Atravessou o corredor, saiu pela recepção, naquelas vestimentas, e ao chegar na rua, jogou o chapéu no lixo, se benzeu, e foi embora.
- Espero ter feito algo de últil como seu presente de aniversário, meu senhor - exclamou de olhos fechados.
E foi embora, misturando aos milhares que já estavam acordados, em clima de Natal.