domingo, 18 de março de 2012

Joaquina, qual seu verdadeiro nome? Qual sua verdadeira ira?

(mi autoria) - Baseado em uma notícia de jornal.
"É duro tanto ter que caminhar e dar muito mais do que receber"  (Zé Ramalho)



Quando estava para nascer, os pais ainda tinham dúvidas em que nome colocar. Maria? Ana? Qual será seu nome? Foram então atrás da bíblia, de numerologias, de tudo qualquer coisa que mostrasse algum nome com energia positiva.
Ficou Joaquina.
O nome Joaquina era engraçado. Quando se apresentava e falava seu nome, as pessoas abriam sorrisos automaticamente, como se aquilo trouxesse alguma alegria. Joaquina ficou conhecida assim: pessoa extrovertida, alegre, de bem com a vida. A pessoa que todo mundo queria por perto, e Joaquina ficava por perto.
Ela cresceu e continuou espalhando toda essa energia boa para todos que passavam por sua vida. Joaquina recebia, raramente, alguma energia do mesmo nível de volta. Às vezes recebia coisas boas, mas às vezes não, e ela seguia em frente, espalhando a solidariedade por aí.
Um dia, Joaquina chegou em casa, depois de dois dias fora. Sua roupa não estava tão alegre, tão colorida: era uma blusa preta abatida, calça jeans, e um tênis preto, levemente sujo de terra.
O semblante de Joaquina estava mudado: o sorriso não tomava conta naquele momento, e os olhos estavam inchados. No silêncio, subiu as escadas quase arrastando suas pernas, deixou a bolsa no corredor do quarto, e foi direto ao banheiro.
Por ali ficou por 3 minutos parada de frente ao Box. Logo se movimentou, foi até o chuveiro, ligou a água na temperatura mais quente possível, e, sem tirar uma peça de roupa, entrou de baixo daquela quentura.
A água quente caía sobre sua nuca, e Joaquina fechou os olhos. Começou a cantarolar alguma canção de infância. Imagino que era Escravos de Jó, canção que cantava em roda com a família. Depois da roupa estar toda encharcada a ponto de pesar sobre o corpo, foi tirando peça por peça, e deixando ali no canto do Box.
A felicidade que Joaquina tinha desde quando seu nome ‘engraçado’ foi dado não estava mais ali. A vibe boa, a compreensão, a felicidade tinham ido embora. Na água, encontrará um refúgio, uma fuga, para junto dela cair as lágrimas, sem que a casa e as paredes notassem a diferença.
Sobre o banquinho que se encontrava dentro do banheiro, a resposta: Uma nota do jornal, bem pequena, anunciando um roubo com homicídio, que acontecera dentro da casa de Joaquina, porém a pessoa assassinada fora seu irmão. Apenas um tiro na nuca que o levou para longe. Para Joaquina, em sua cabeça, o irmão sempre teve mais facilidade e menos cobrança na vida: quando queria sorrir, sorria; quando não queria, chorava ou ficava irritado, e mesmo assim, era amado por todos sem uma obrigação, diferente de Joaquina.
Como assim, Joaquina triste? Seu nome traz tanta alegria, traz algo engraçado, me lembra daquelas cantigas de Festa de São João, que os nomes inseridos nos personagens eram João, Maria, José, Joaquim, Francisca, Joaquina!
De pequena foi posto um rótulo que não conseguiu tirar por tantos anos, exatos trinta e quatro. E apenas naquela noite isso mudou, não porque queria, mas o instinto foi mais forte.
Joaquina permaneceu naquela água quente por cinco horas. Do breve alívio que a água trazia, começou a sentir mal, a pele já estava muito enrugada. Daquela forma mesmo, com o corpo nu, resolveu deitar naquele chão gelado, e teve um pequeno choque que a trouxe de volta a realidade.

Uns ganham, outros perdem, mas raros aqueles que têm a capacidade de não viver com tantas máscaras.

Seu irmão enquanto vivo fora alguém sem máscaras, alguém amado com seus defeitos e encrencas, mas amado. E Joaquina também o amou, como todas as outras pessoas. Agora o mundo e sua sujeira tiraram isso dela, e a única coisa que ela queria saber:

Aonde errei? Tentando sempre ser a melhor para mim e para os outros, afastando ao máximo todos os defeitos, e de volta recebo a morte, recebo a tirania, da pior forma possível.

Então adormeceu naquele chão, e acordou apenas com o primeiro raiozinho de sol que entrava pela janela. Levantou do chão frio, tomou outro banho morno, mas rápido. E voltou a rotina.
Mas Joaquina não era mais a Joaquina. Era uma Joaquina, uma que ninguém deixava despertar, que a responsabilidade de um nome tão alegre não deixava vir.
Era a mulher que perdera o irmão de forma trágica, e que ia curar isso com seu tempo, sem pressa do mundo, porque ele pouco se fode pra isso. O nome? Era apenas um nome, que serviu para assinar sua certidão de nascimento, e a próxima vez seria apenas para assinar sua certidão de óbito.

Pela primeira vez, seu nome não era importante, mas seus sentimentos eram.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Let's talk about sex!

- Mãe.
- Oi meu tesouro!
- Precisamos conversar, mãe...
- O que houve filha?
...
- Mãe, precisamos conversar sobre sexo!
- ... ah, ok, filha, imaginei que esse dia viria! Aliás, fico feliz que teve seu tempo certo pra conversar sobre...
- Mãe, eu não quero NUNCA na minha vida fazer sexo.
- ... Como assim?
- Não tenho vontade e acho nojento.
- Não sente atração por homens?
- Acho que não.
- Sente..... por mulher?
- Mulher?! Não, mãe! Nossa, isso não, bem... pelo menos nunca senti!
- Então...
- Sei lá, mãe. Queria conversar sobre isso: Quero que me aceite como sou: uma pessoa assexuada (imagino que eu seja). Não quero sexo, se um dia eu namorar, quero que a pessoa me ame primeiro ao invés de sentir tesão. Sexo deixou de ser algo para ser conquistado de forma elegante e com pureza, hoje é apenas um prazer, passageiro, fácil...muito fácil, e não gosto de conquistas fáceis, sem uma luta, um brilho...uma paixão. Não gosto de sexo!
- Mas filha, e filhos?!
- Eu adoto, faço inseminação.... forma é que não falta!
- E um rapaz minha filha, não pretende namorar nunca? Já está com 24 anos!
- Não tenho interesse pelas pessoas, mãe. Espero que me respeite por isso.
- Tem interesse pelo o que então?
- Tenho interesse pela minha felicidade.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

A ansiedade das escolhas*

(Esse texto não é de minha autoria, mas acho interessante sua reflexão. Leiam!)

Optar por isto ou aquilo faz parte da nossa rotina. Saber conviver com essas decisões pode ser libertador. Confira a reflexão!
 
Como escolher entre dois conjuntos de valores tão importantes?
 
"OK, então vamos esperar por sua escolha até amanhã de manhã. Pense bem antes de decidir."
 
A frase soou como uma ameaça. Eu tinha que decidir e não podia negar essa responsabilidade, já que corria o risco de perder tudo. Mas a escolha não era simples, pois, no fundo eu queria os dois. Um representava a liberdade, a aventura, a alegria de viver. O outro significava a sabedoria, o conhecimento, o futuro. Como escolher entre dois conjuntos de valores tão importantes? Como optar por um e abrir mão do outro que eu também queria tanto? Por que o destino estava fazendo isso comigo? Ó mundo cruel...
Mas não teve jeito, pois eu sabia que, se demorasse para decidir, ou não mostrasse firmeza em minha conclusão, não seria considerado maduro o suficiente para merecer nenhum dos dois. Acabaria tendo que me contentar com algum prêmio de consolação, e isso seria a pior coisa que poderia me acontecer naquela fase da vida. Então, armado de uma convicção artificial, comuniquei minha decisão:
 
- Então está bem, fico com a bicicleta! - e abri mão da enciclopédia.
Estávamos em véspera de Natal e eu tinha 11 anos. O que aconteceu naquela oportunidade foi uma espécie de iniciação à vida, que nada mais é que uma sucessão de escolhas. Parece que a única escolha que não fizemos foi a de nascer, porque daí para a frente, passada a primeira infância, começa nossa preparação para sermos responsáveis. Tem início o desenvolvimento de algo chamado "consciência", que, em última análise, é a autonomia para cuidar do destino, escolhendo os caminhos da vida. Amadurecer, descobri, é assumir a responsabilidade por suas escolhas.
 
Eu queria muito aquela bicicleta. Qual é o garoto que não quer? Desejava sair por aí, com os colegas ou mesmo sozinho, deslocando-me com rapidez, sentindo o vento, conhecendo outros bairros da cidade. Mas também estava de olho na tal enciclopédia, que, para mim, era uma espécie de passaporte para o conhecimento. Com a bicicleta, poderia passear pela cidade - pensava -, e com a enciclopédia, poderia viajar pelo mundo.
Prevaleceu a liberdade do vento, não a das letras, como seria de esperar de alguém que mal encerrava a primeira década de vida. E aquela bicicleta me deu muita alegria, acredite. Nunca me arrependi da escolha, até porque mais tarde, em outro Natal, a enciclopédia veio, ainda que não tenha vindo o aparelho de som - outra escolha/troca.
 
A tirania do"ou"
 
Um dos personagens mais explorados pela literatura alemã é o de um homem que fez uma escolha perigosa: Fausto. Ele foi inspirado em uma pessoa real, o médico Johannes Georg Faust, que viveu entre 1480 e 1540 e que era também estudioso de alquimia e magia. Sempre insatisfeito com o conhecimento disponível, ansioso por saber mais, acabou por dar origem a Fausto, que teve inúmeras interpretações na literatura germânica, sendo que a que predomina é a do mais importante escritor alemão, Johann Wolfgang von Goethe (1749-1832).
 
A primeira parte da versão de Goethe foi publicada em 1806 e conta que Fausto, querendo superar os conhecimentos disponíveis na época, ambicioso pelo saber, acabou fazendo um pacto com um demônio, Mefistófeles. Durante 24 anos ele não envelheceria, experimentaria todos os prazeres e teria acesso a conhecimentos novos. Tudo isso em troca de sua alma, que passaria a ser posse do maléfico pela eternidade.
 
Fausto aceita, pois seu desejo de saber é superior a tudo. O que ele não contava é que se apaixonaria por Margarida e, ao se ver perto de seu prazo, vê-se também obrigado a abandoná-la. O mito fáustico, em todas as versões, joga com a ideia da perda como subproduto da escolha. E essa perda pode ser desesperante, como no caso do personagem, ou pode ser, em sua versão mais humana, no mínimo, a causa de grandes ansiedades.
 
A ansiedade é, sim, um dos males da modernidade. Não há pessoa que não relate que é acometida, eventualmente, por uma "crise de ansiedade", caracterizada pela sensação de dúvida, incerteza, desconforto. A pessoa ansiosa gostaria de não estar onde está, ou pelo menos gostaria de não estar vivendo a situação que lhe causa ansiedade - mas, por outro lado, sabe que não tem como evitar. Todos somos ansiosos, em graus maiores ou menores.
E a causa mais comum de geração de ansiedade atualmente é, como vimos, a necessidade de fazermos escolhas. Sim, pois a cada escolha você tem que sofrer com as renúncias que ela acarreta. Essa é a tragédia da escolha. O imperativo do "ou". Ou isto ou aquilo, os dois não dá, explica a vida - e a gente aceita com resignação.
 
Escolher é trocar
 
A língua inglesa tem uma expressão que define bem a ansiedade da escolha: trade-off. Sem tradução literal, trade-off significa escolha, mas também quer dizer troca. Em síntese, escolher significa trocar uma coisa por outra. Ao escolher a bicicleta, abri mão da enciclopédia. Foi uma troca e, convenhamos, a melhor que podia ter feito naquela ocasião. No ano seguinte, troquei um aparelho de som novinho pela coleção de livros que esperei por um ano. E por aí vai.
 
Trade-off é uma expressão muito usada nas empresas, e faz parte do planejamento estratégico. Os empresários e executivos sabem que sempre há um preço a pagar. Por resultados, terão que fazer investimentos. Se buscarem inovação, terão que admitir alguns erros. Se optarem por economizar, terão que reduzir os investimentos. Na economia do país, se a opção for pelo controle da inflação, sabe-se que a taxa de crescimento será menor. "Não há almoço grátis", dizem os economistas. Trata-se de um postulado da economia que lança mão da obviedade que não dá para, ao mesmo tempo, comer a refeição e ficar com o dinheiro.
 
Um dos melhores exemplos de trade-off estratégico é encontrado não na economia, mas no jogo de xadrez - e, nesse caso, pode receber o nome de gambito, que não é, portanto, apenas o codinome das pernas finas.
Nesse jogo, gambito é o sacrifício de uma peça em troca de alguma vantagem, que pode ser outra peça ou espaço, desguarnecimento do adversário, linhas diagonais ou simplesmente tempo. O outro jogador pode aceitar ou refutar a oferta, pois sabe que há uma intenção por trás, uma espécie de jogada oculta. O Gambito do Rei é uma jogada em que o jogador de peças brancas oferece um peão logo no início do jogo e, aparentemente, desprotege o rei, mas, na prática, obtém uma liberdade de ações bem maior a partir disso, ganhando o domínio que vem da iniciativa. Tanto essa jogada quanto o Gambito da Dama são estratégias de quem sabe jogar e não de iniciantes sem técnica nem equilíbrio emocional.
 
Na vida também é assim, mas é claro que há variações importantes. Todos os dias fazemos escolhas soft, cujos enganos não provocarão maiores consequências. Se você errar no prato no restaurante ou no filme na locadora, ou se escolher uma roupa leve num dia em que faz frio, tudo bem, a encrenca não é tão grande assim. O complicado é errar nas escolhas hard, como a profissão, os investimentos ou a pessoa com quem se casar e compartilhar a vida. Felizmente, fazemos mais escolhas soft do que hard neste passeio pela vida.
 
A possibilidade do "e"
 
Mas nem tudo está perdido. Disse Einstein que nós não podemos resolver um problema usando o mesmo estado mental que o criou. É necessário buscar novas possibilidades, aceitar a existência de caminhos não vistos no primeiro olhar. E, nessa busca, sempre podemos contar com a possibilidade do "e" em vez do "ou". A inclusão como alternativa à exclusão.
 
Nem sempre dá, mas não podemos descartar essa possibilidade, e até contar com ela. Aliás, há situações em que essa é a única saída. Voltando a falar dos economistas e dos pensadores no futuro da sociedade humana, há um tema que gera muita polêmica. Trata-se da disputa entre crescimento da economia e a sustentabilidade do planeta.
 
Os que pregam o crescimento econômico são acusados pelos ambientalistas de não se preocuparem com a sustentabilidade do planeta, e estes são chamados por aqueles de patrocinadores do atraso. Durma-se com um barulho desses. Felizmente existem cérebros atuantes, cientistas, estadistas, pensadores que afirmam ser possível promover desenvolvimento protegendo a natureza. Desenvolvimento com sustentabilidade. Geração de riqueza e preservação do meio ambiente.
 
Para isso, claro, temos que falar de coisas novas, como reflorestamento, reciclagem, eficiência, novos materiais, pesquisa pura e aplicada, consumo consciente. Novos modelos mentais. Como se vê, fazer a opção pelo "e" requer investimento, tempo e inteligência. É mais fácil escolher um, ignorar o outro e tentar dormir tranquilo.
 
A inclusão é a solução ideal, quando possível. Senão, é necessário escolher e arcar com todas as consequências que fazem parte do pacote. O direito de escolher é atributo do mundo livre, o que é muito bom, claro. Nos países totalitários, em que ditadores comandam tudo com mão de ferro, a população não tem que fazer muitas escolhas, porque o estado faz por elas.
 
Viver com liberdade aumenta a responsabilidade e a ansiedade, mas viver sem ela aumenta o sentimento de impotência e o resultado pode ser a tristeza e a depressão. Sinceramente, se esse é o preço, fico com a ansiedade. E viva a liberdade de escolha.
 
* Eugenio Mussak não se arrepende de ter optado pela bicicleta e não pela enciclopédia

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Crise

A vida tem seus altos e baixos.
E a única defesa que sobra é o distanciamento;
Distancia por medo, por precaução,
Porque preferimos observar primeiro antes de abocanhar.

Mas quando abocanhar, será algo bem guloso; e lógico, perigoso.

E isso não terá muito problema, porque depois do fim, vêm o começo do começo do recomeço.
Que assim seja, mesmo nesse vendaval de crises.
Que a heroína sobreviva ao maior veneno, e salve mais uma vez, esse mundo bonito e querido que é o da imaginação.

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Beijo gelado


(mi autoria)

-Bom dia! E um beijo gelado em você!

E meu dia começava assim, com um leve beijo seu, em uma madrugada um pouco fria, tornando aquele beijo um pouco gelado se aquecer conforme o que sentiámos.

É, é assim que imagino ao te ver. Sabe, já conheceu alguém que te passasse tamanho conforto, segurança? Você me passa isso.
Imagino você e eu, eu e você, igual aquela canção do The Turtles. Imagino abrir meus olhos e encontrar seu rosto com um leve sorriso, roubar por um momento seu lábio ao juntar-se ao meu. Imagino você se levantando com tanta preguiça e vindo me abraçar, e abre esse sorriso lindo seu, que o melhor de tudo não é a forma dele, e sim porque ele é sincero, o tempo todo.
Imagino, quando posso, e penso: como seria eu e você?
Sinceramente? Seria inexplicável, seria.... não sei, porque me falta palavras e um pouco de ar só por imaginar!
Aposto que daria certo, que seríamos felizes, e que nossos olhares, ao cruzar, falaria mais do que é preciso. As conversas seriam agradáveis, e o silêncio também.

Imagino...a gente daria certo sim, tenho fé disso!
É uma pena que seu beijo gelado pertence a outra pessoa agora.
Mas não desejo mal nunca à vocês, desejo que sejam felizes o máximo possível!
Mas que ainda penso como seria harmonioso entre eu e você...ainda penso sim :)


quarta-feira, 30 de novembro de 2011

A dança

(mi autoria)
(texto com possiveis alterações futuras, conforme o ritmo da dança)

I keep dancin' on my own - Robyn

Esse dia foi diferente pra Letícia. Sem vaidades, sem preocupações, sem medo. All-star, o mais usado possível; camisa grande, larga, e uma calça jeans confortável. Sozinha, vai ao clube mais perto. 
Dali olhou o movimento e sentiu olhares: todos estavam acompanhados, com amigos, amigas, namorados ou namoradas, ela estava com a melhor companhia aliás - ela mesma - mas ninguém nota isso, notava que ela estava sem alguém ao lado....alguém só.
Léti (assim refiro a ela) se hesitou um pouco, mas foi ao fechar um pouco os olhos que mudou de ideia.
Subiu as escadas do ambiente escuro, com luzes dançando junto aquela multidão, e por um momento tudo em sua volta ficou mais lento, mas delicioso, sensual, com aquelas pessoas unidas e pulando conforme a música. Aquela batida frenética começou a tomar conta de seu corpo, e as pessoas sensuais em sua volta foram sumindo, e, conforme sumião, seu corpo tomava conta daquele prazer que sua visão tinha, e que se transferiu pra alma.
Ali não tinha Letícia, nem Léti, nem alguma garota com problemas pessoais, financeiros, ou quaisquer outros.
Era uma alma que necessitava se expressar, sem depender de qualquer esteriótipo, de olhares, de julgamentos.
É uma alma que gritava por viver, por sua identidade.
E nada de ruim poderia abater aquele espírito; poderia cair o mundo, ele estaria ali, firme como nunca, como se fosse de titânio.
E ela se expressou ali, conforme ia até o chão, nos giros, nos passinhos, no balanço dos braços, do corpo que comandava.

Essa alma voltaria a sua rotina, mas quando quisesse se encontrar novamente, sabia o que fazer, sabia como chegar até ao seu eu verdadeiro e sentir o que é viver.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Feliz festas de fim de ano (?)

(mi autoria)

- Não sei o que me dá de verdade. Por 27 anos, procuro uma resposta pra isso...27? Tudo isso será? Não me lembro bem dessas festas quando pequena; achava que os dias eram apenas dias, sem virada, sem muita coisa especial. Acho que a partir dos meus 5, 6 anos, que notei a existência de uma época do ano em que ganhava presente sem ser seu aniversário. Sempre achei Papai Noel assustador, mas queria ver a árvore cheia de presentes, era....divertido (?!) Eram caixas embrulhadas, grandes, uma em cima da outra, e a maioria daquilo nem sinto mais o cheiro: ou doei, ou estragou. O importante é que por um bom tempo achava aquele período de comemoração maravilhoso, cheio de brilho, de harmonia, com músicas tocando na TV, no qual as pessoas cantavam de mãos dadas, se abraçando, sorrindo.    Mas - como sempre contrapondo - uma hora isso começou a me provocar, a não fazer bem (exatamente). Se aquilo era bom, então sou masoquista! Eu não via algo bom....e hoje ainda não vejo, enfim, não gosto de festas de fim de ano.
- Ahn? Do que está falando Fenanda?
- Que não gosto de festas de fim de ano! - Ela se ajeita sentada no chão, para se virar diante a Amiga - É tudo tããão...capitalista, tããão porco... É nascimento do menino Jesus para quem acredita, mas pergunta qual dessas pessoas que pregam isso, que vão nesse dia comemorar algo realmente referente à Jesus? Me diz? Quase ninguém! Maioria de embebeda, como nós duas agora, abraça e diz que ama à todos, deseja tudo de bom à todos, e isso repete-se agora no Ano Novo, mas para uns dias depois nem olhar mais na cara dessas pessoas, ou só arruma intrigas....serei mais clara: as pessoas são falsas, desejam as coisas da boca pra fora, por 'educação'; às vezes podemos até desejar de verdade, mas deixamos coisas menores e futéis entrarem primeiro em vez de recalcular, de aplicar essa 'pessoa modelo em fim de ano' para quando houver problema. Já reparou que só somos mais sensíveis e humildes e seilámaisoquedebom em festas de fim de ano? Porque não aplicamos isso ao ano todo? Qual o meu problema!
- Fer, relaxa. Está precipitando - antes de Fernanda voltar a falar, sua amiga complementa - nããão que você esteja errada, concordo aliás, mas pessoas são difíceis, e muitas nem pensam nisso, vivem dentro de um sistema, de uma rotina. Já que você quer ser diferente, seja, faça sua parte, mesmo recebendo pouco ou nada de volta, e será você com a sua conciência.
- Amiga, quantas coisas você realizou nesse ano que passou? Falo, de quando virou o ano e você fez promessas, cumpriu todas?
- Acho que nenhuma, Fer, exemplo é eu aqui com essa garrafa de vinho, virada desse ano falei que não beberia mais vinho...
- Então! Por quê não conseguimos cumprir?
- Penso, pelo menos por experiênciaminha, que é porque fazemos as promessas erradas, as iniciativas erradas. Exemplo, eu e o vinho: eu não estou dirigindo mesmo, nunca fui exagerada em beber, o que ia acrescentar na minha vida NUNCA MAIS beber vinho? Eu preciso fazer promessas que valem a pena também, que muda todo um modo de viver para melhor; nós não sabemos fazer promessas, não sabemos amar e sabemos muito menos ainda respeitar.
- Com certeza.... e o que estamos fazendo aqui, amiga?
- Vivendo, e aposte: muita gente queria tá aqui como a gente....desculpa tocar nesse assunto, mas...ainda fica lembrando dele?
- ......... lógico, todo dia.
- Não queria ser chata, mas eu imagino que se ele estivesse ainda entre nós, ia adorar festas de fim de ano, mesmo com promessas fúteis, promessas que futuramente não iremos cumprir, mesmo com a falsidade dos outros... todo mundo é falso ou já mentiu - e mente e mentirá ainda - o importante é fazer a sua parte, e ser o mais verdadeiro possível com quem  realmente quer ao seu lado.
Fernanda abaixou a cabeça:
- Tem razão....fim de ano é só uma marcação de tempo também, depende de nós quando '(re)começar' e fazer isso valer a pena. Não é o tempo que fará isso, é eu mesma -e isso parece coisa tosca de auto-ajuda-.
- Isso aí Fer, linda amiga! E parece um pouco filosofia e 'piegas' demais, mas é a verdade.

Ouve-se fogos, e Fernanda se aproxima da amiga:
- Ah amiga, um....uma feliz virada de ano. O que for pra ser conquistado será, e só te desejo o melhor, sem ser falsa.
- Eu também querida....desejo isso tudo em dobro.
Se abraçam.
-Quer falar feliz ano novo pra mais alguém? - pergunta amiga.
- Quero sim.
Fernanda pega a bolsa que estava ao chão, tira sua carteira e nela pega uma foto:
- Feliz ano novo, irmão. Esteja onde estiver, você está comigo, e desejo mais do que nunca sua infinita paz, e que não se preocupa comigo, ficarei bem.
Fernanda volta a amiga.
- Obrigada por me ouvir, mesmo que estamos um pouco alteradas...melhor voltarmos a festa, certo?
- Certo! - a amiga sorri.
- Um beijo pra selar o ano? - diz Fernanda com sorriso malicioso na cara.
- Com certeza! - responde a amiga, ao deboche.

As amigas se beijam e se abraçam por longo período. Se levantam do chão e volta ao sistema, a rotina, mas com uma certeza no coração de tentar fazer diferente, por elas e por quem elas amam.